6 de set de 2015

Dirty Love Game, Capítulo 1: Trouxisse

Rule number two: Just don't get attached to
Segunda-feira. Acordei com o maior mal humor que conseguia ter. Não consegui dormir nada desde aquele dia, todos os meus esforços para estudar ou fazer algo produtivo falharam. Espero que tenha sido apenas um jogo, e que nunca mais veja aquele maldito ser humano. Olhei o relógio, estava atrasado. Comi apenas um pão puro e fiz minha higiene pessoal o mais rápido que conseguia. Peguei minha mochila, tranquei a porta e saí correndo. Na frente do meu prédio estavam Ren Hiroshi, Takeshi Hayato, Noriko Ai, e claro, Fuyuki Mao, a única pessoa que eu precisava ver nesse momento. Assim que saí pela porta do salão principal, fui recebido com um tapa de Noriko.
-ESTÁVAMOS TE ESPERANDO! ESTAMOS ATRASADOS POR SUA CAUSA SABIA? -Ela gritou, furiosa, chamando atenção de todos os que estavam passando pela rua. Devem nos achar loucos. Algo normal. Nunca fomos muito normais.
-Sim, sim, eu sei, anda logo povo! Temos que ir correndo pro campos -Disse e puxei a mão de Mao.
Todos nós estudávamos na mesma faculdade, só que cursávamos diferentes aulas, apenas Ren e eu fazemos engenharia computacional. Corremos seis quarteirões inteiros até chegar, ofegantes, nos despedimos e fomos cada um para sua aula. E óbvio, o tão aguardado beijo de início de dia que recebi de Mao na despedida foi o que me deu energias para aguentar o primeiro período. História.


Realmente, a pior matéria de todas. Porém, ainda tínhamos um professor bom, ao contrário daquele outro ser humano cuja o nome prefiro nem lembrar. Quando Ren e eu entramos, a aula tinha começado, e o quem estava na sala não era o professor, e sim o diretor. Sentamos na primeira fileira, como de costume, e pousamos nossos olhos no diretor. Não era normal ele aparecer nas salas, principalmente por causa de seus afazeres, então pensamos que seria algum aviso importante.
-Então classe, o senhor Masamune se ausentou hoje, devido a um resfriado. -Masamune era nosso professor de história. Sim, por incrível que pareça, tínhamos história mesmo cursando faculdade de engenharia, mas era opcional. Mesmo assim Ren e eu íamos a aula, para conseguir créditos extras. -E para substituí-lo, trouxemos um professor do Colégio Saint Liberdad, que fica a poucos quarteirões. Conheçam o professor de história que terão hoje, Yoshimoto Atsushi.
Por favor alguém me acorde, quero que isso seja um pesadelo, aquele homem estava entrando, e adivinha, nossos olhares nos encontraram. O simples encontro de olhares fez que um arrepio percorresse minha espinha. Ele nasceu para me provocar, ou melhor irritar, não é mesmo Deus? Mas minha expressão de fúria foi logo percebida por Ren, que me deu um leve cutucão durante a apresentação de Atsushi.
-O que foi? Conhece ele? -Hiroshi me perguntou, preocupado.
-Sim..
-Não vai me contar não é mesmo?
-Acho que já está na hora de você saber. Já deve ter ouvido das meninas que eu tinha uma aparência feminina durante o colégio, estou certo? - Ele concordou com a cabeça - Isso porque eu era hermafrodita, então aos 18 optei por ser homem, e tive que fazer uma cirurgia. -Dei um suspiro, ignorando o olhar surpreso que ele me lançava. -E Yoshimoto era meu professor. Nós fingimos estarmos namorando no terceiro ano do ensino médio para que ele se vingasse da esposa que tinha o traído. Só que o tiro saiu pela culatra. Eu acabei me apaixonando. -Agora o queixo de Hiroshi estava alcançado a bancada da mesa -Sábado ele apareceu na minha casa, falando que ainda me amava.
-Então, o que vai fazer?
-Sinceramente? Quero que ele morra. Depois daquilo, só tive nojo e raiva dele, indescritíveis por sinal.
-Oh vidinha complicada hein? Então até o senhor perfeitinho tem seus podres, haha. -Eu soltei um olhar fulminante para ele -Relaxa, é só ficar perto de mim e das meninas, ele não vai te incomodar.
-Espero mesmo.
-Com licença Ren e Ken, dupla sertaneja, querem falar sobre a Segunda Guerra Mundial ou preferem que eu explique? -É hoje que eu mato o Yoshito e jogo seu corpo no rio Tietê.
-Cuidado com a intimidade, os professores normalmente usam o segundo nome para referirem-se aos aulos -Respondi, e algumas pessoas da classe riram.
-Se bem que não precisamos mais disso, não é mesmo querido Ken? -A turma inteira se calou, e minha repulsa apenas aumentou. QUERIDO? QUERIDO O CU DELE! QUERIDO O SEU CU YOSHITO, QUERIDO O CARALHO! -Sou seu professor desde o ensino fundamental, então cale a boca.
-Certo, desculpe Yoshimoto, o professor que chifrou a sua esposa. -Vamos irritá-lo um pouco.
-ELA ME CHIFROU PRIMEIRO! -Bingo! Ele bateu a mão na classe de Hidetaka quando disse isso.
-Então admite que é corno? -Perguntei em um tom sarcástico, e pude ver seu rosto vermelho a distância.
Depois disso nos calamos e encerramos com a discussão infantil, mas as gargalhadas apenas ecoavam, principalmente a de Ren. Meus tímpanos estavam quase estourando com a risada dele, é definitivamente muito alta. Quando elas abaixaram, ele continuou a dar a sua aula, mas de minuto em minuto ficava me encarando, e eu, uma pessoa muito educada, mostrava o dedo do meio todas as vezes que o flagrava me olhando.
Fim da tarde, finalmente as aulas haviam acabado. Iria passar na classe de Mao para buscá-la, mas o que vi era uma situação totalmente diferente. Meu coração contraiu, e a sensação que senti era uma mistura de nojo, raiva e tristeza. Já desconfiava disso, mas precisei ser trouxa e ver por mim mesmo. Ela estava me traindo. Ah meu coração sempre me ferrou, primeiro Gabriel depois Yoshito e agora Mao. Eu sou trouxa pra caramba, onde está meu prêmio? Controle-se Ken, você já sabia disso, agora apenas saia com a cabeça erguida. Dei uma tosse forçada e fiz com que olhassem para mim.
-K-Ken, eu posso explicar -Aham, vai nessa Mao, eu sei que você não é santa, nem perto disso.
-Nem precisa, já desconfiava. -O seu rosto ficou rubro. Desconfiava disso a mais de um mês, que ela estava comigo só pela fama e status que ganharia com um dos garotos mais bonitos do campus, se bem que eu nem me acho tão bonito, eu me acho normal..Enfim, isso não é o tópico aqui -Está tudo acabado. -Disse isso e fui puxado pela camisa por ela.
-NÃO! EU DECIDO QUANDO ACABA! -Ela falava, ou melhor, tentava acabar com meus tímpanos -Se terminar comigo agora, vou contar para todos que você já foi mulher! -Ela disse. Uma chantagista? Realmente, ela é uma víbora, e eu sou um otário. Talvez fossemos chamado pelo Casos de Família.
-Vá em frente, me orgulho de ser um dos poucos homens, talvez o único, que já teve peitos. Não preciso dessa sua chantagem podre. -Disse, e me virei -Continuem de onde pararam- Apenas fechei a porta e saí. Indeferente. E quem estava atrás da porta escutando tudo? Isso mesmo, o professor chifrudo. -É feio bisbilhotar pela porta, sabia? -Um riso debochado saiu de sua boca.
-Poderia tê-la largado antes dela fazer essa chantagem, sabia?
-Só se responde uma pergunta com outra pergunta quando se é um idiota.
-Talvez eu seja um idiota. Um homem formado apaixonado por um ex-aluno, não soa um pouco estranho? Acho que ninguém acreditaria.
-Pode parar de fingimento.
-Não é fingir. Gostei de você, e acho que lembra-se muito bem do dia que disse isso, no terceiro ano.
-Lembro, mas quero esquecer. -Dei um longo suspiro- Fiquei sabendo que cancelou o noivado.
-Quer mesmo falar disso aqui? -Ele perguntou, enquanto algumas pessoas observavam com o canto dos olhos a nossa conversa.
-Tem razão. -Interrompi ele antes que pudesse continuar- Vem comigo, vamos terminar isso enquanto caminhamos.
-Isso é uma ordem? -Perguntou, cínico.
-Esperava um convite formal? -Respondi em tom sarcástico.
-Está sendo idiota. - Afinal, responder em tom sarcástico depois de ter sido chifrado não é motivo para ser idiota, não é mesmo?
-Somos dois idiotas. -E assim terminamos o assunto. E pela primeira vez em anos, acabamos rindo juntos. Isso me da certa nostalgia. Acho que precisava conversar com outro corno para aliviar a situação.
Enquanto andávamos ele me contou que a noiva descobriu que era fingimento, mas ele não queria deixar seus sentimentos de lado e me procurou, cancelando o noivado, mas só foi descobrir tudo esse ano. Contou também que ela o traía com seu vizinho, que era médico.
Para retribuir, contei para ele o porque de ter optado por se homem, e coisas do tipo. No final, acabamos nos despedindo na frente do colégio, pois toda a conversa já havia sido feita. O colégio que ele trabalhava era na esquina com o meu apartamento, mas foi melhor assim.
Isso não quer dizer que sejamos amigos.
Eu espero.

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